sábado, 28 de novembro de 2009

Obrigado Lago Niassa

Um encontro ocasionado pela paixão amor a Metangula/Lago Niassa

Pai filha maravilhados com a hospitalidade do Filho da Escola Tintinaine e sua Familia

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Revivendo Metangula/Niassa


Mensagem de marinheiros = Alô Metangula/Niassa


Adivinhem com que estavam cheias no momento da despedida as mentes destes dois marinheiros!..
Chamam-na pelo nome Metangula
Assim como eu também chamava
Hoje muitos mais sei que a amam
Mas ela também, por nós é amada
Ainda para um é pouco, quanto mais para dois
Será uma recordação inesquecivel, nem o Self-Service faltou, tal como na Briosa

Metangula/Niassa, que o mar da Póvoa leve a mensagem até Maputo
Não sei,não quero saber, porque não me incomoda, que digam que sou irrealista. Porque gosto de sonhar, vou continuar a fazê-lo, mesmo que imensas venha a sentir ao acordar
Vezes incontáveis as que sofri, por acreditar que estava prestes a viver horas inesqueciveis e tudo se esfumava, quando menos o esperava.
Tenho desilusões, mas momentos tem havido, que me têm proporcionado vivências inesquecives. Chamado amor à primeira vista.
Foi -me enviado um comentário, que passado uns dias o li, no mesmo era dito que os meus blogges não tinham qualidade. Não fiquei minimamente melindrado, pois tinha a noção que assim era. Assumo a responsabilidade de ter sido um mau aluno, porque o meu professor o filho da escola Manuel Araújo Cunha, me tinha recomendado. Mas é como se esteve dois anos em metangula e chegamos a uma cidade. Percebesse.

Porque acreditei?

Tive a intuição que essa critíca era séria, sei que a sorte não nos bate à porta muitas vezes, mas devemos sabê-la aproveitar quando isso acontece. Pela forma como o Filho da escola falava e com ternura que falava das àguas do nosso Lago, nãom poderia enganar, acreditei que estaria ali alguem que desinteressadamente me procurava ajudar.

Tinha a farda, Metangula e o Lago, como seria possivel não ser verdadeiro aquele sentimento. Acreditei que era credível.
Em boa hora aceitei, passados estes temppos o Lago e Metangula são ainda maiores, o amor entre nós marinheiros e muitos do Exército e até nativos conhecem melhor o nosso caracter, e o amor com que tratamos a sua nossaa/terra e o seu/nosso Lago.

Obrigados filhos da escola.

Escolinha Araújo,tu que estives-te na Machava e um dia falaremos disso, já que lá estivemos também, mas quero render-te aqui a minha homenagem, não fosse a tua pronta disponibilidade da criação dos meus blogges e nada disto teria acontecido.

Estamos todos de parabéns.

Viva a Marinha Camaradas Marujos.

Voltando ao Tintinaine

Os reparos, traziam uma mensagem amiga, prontificava-se a tudo fazer para me ajudar. Dependia da minha aceitação ou não, mas perguntar ao faminto se tem vontade de comer!....
Aceitei e rápidamente se passou ao trabalho. Não leva muito tempo que tudo começou,mas começou com tal força que quase tudo está pronto e de técnica superior.

Unidos pela farda

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Para Ti João M´Ponda!


Talvez nunca chegues a ter conhecimento que te escrevi esta mensagem, mas para que fique gravado nas memórias e se no presente és uma referência, no futuro podes ser um exemplo, talvez quem sabe se um Niassense com quem mantenho contacto,e que actuamente se encontra na Universidade de Lourenço Marques (sempre assim a trataremos a Capital, não por saudosismo, mas pela imagem que nos transmite), como te foi possivel falar com o nosso amigo comum José Luis Torres e lhe perguntares se tinha sido militar na base da Marinha em Metangula.
Recordo-me de ti, quando aí cheguei em 1968 eras uma pessoa amável, conheci outros como tu, porque com vós estabeleci uma óptima relação, porque era encarregado da piscina, e às sextas -feiras levava comigo uns tantos para a limpeza da Piscina. Não te posicionavas ao lado da Frelimo, nunca te perguntei, mesmo porque isso não era uma coisa importante para mim.
Como sabes amigo, vós os empregados na Marinha apesar das enormes dificuldades porque passavas, em relacção aos outros, inclusivé os que trabalhavam para o Exército, as vossas condições eram bem melhores (apesar de ser uma ninharia, vós ganhavas 19$00 e a Laurentina grande custava 21$00). Mesmo assim quando faltava uma semana para receber, já alguns me dizerem:
- Chi Patrão, vai istar doente, vai doer Maning meu cabeça.
Compreende-se não é verdade? É evidente que não fiquei feliz. Fiquei, essa é que é a verdade, muito feliz. Fiquei feliz em saber que te recordavas de quando em 1965 eras ordenança da Secretaria de Comando. Que trabalhaste como electrecista na Oficina de Rádio com o Sargento Vieira.
Com saudade recordavas o Cabo Telegrafista e o Marinheiro Bogo da Saturno. Como devoravas a foto onde eu estava e o Caeiro de Barbas que logo identificaste. Os Oficiais com quem trabalhaste e fielmente serviste, caso do Tenente Soares Rodrigues, Tenente Maia, Tenente Camões Godinho, Cerqueira, o José Botelho Leal, de Abril de 1968 até meados de 1969, Chefe do Centro de Comunicações de Metangula Tenente Mendes Cabeçada.
A casa que tu e o Neves construiram e veio a servir como restaurante "A Teia", que o Neves explorava, o qual nós desfrutamos e aí passsamos bocados maravilhosos, os cantos alentejanos. e muito mais, depois de bem comidos e bem bebidos. Só para te dar uma ideia, um belo dia, eu e o Marinheiro mergulhador Delgado chateamo-nos, é evidente ficou por palavras, começamos a beber três Marias e só para aí pela terceira e quando a carga já era grande nos apróximamos e fizemos as pazes . Quando de lá saímos eram seis e meia. O sargento Fonseca que fazia as suas corridas matinais vinha no nosso encalce às voltas e a controlar-nos, para percorrer talvez uns setecentos metros demoramos 45 minutos, isto é até entrar o portão da base, porque ate aterrar na cama não faço a menor ideia.
Tal foi a carga. Não esteve mau. Normalmente não tinha muito tempo, era só depois das tantas, mas também aí bebi bem a minha parte. A melhor sorte do mundo e se algum dia te falarem de nós procura a todo o custo dar notícias. Estarás nos nossos corações.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Carta aos Filhos da Escola!

" O Tintinaine" e "O Alquimista"

Amor de marinheiro - Um desejo

Se àguas do Niassa guardasse
Mas que o mar me o trouxesse
Que os golfinhos o ondulasse
E para que o Douro m'o desse

Com todo o amor:
Filhos da Escola Carlos e Manuel, quero reconhecer publicamente a minha gratidão, mesmo que também eu, esteja contaminado pelo mesmo vírus e que seguramente o tenha apanhado, tal como vós, e me honra, na sã camaradagem, apanágio daquilo que nos transmitiram, de ensinamentos legados por aqueles a quem fomos substituir, marinheiros dos sete costados da nossa querida Armada.
A chamada Guerra que se alimentou entre 1961 e 1974, não uma guerra de Guerrilha daquelas de ódio, sangue e morte, que em nome de liberdade de um povo, substituindo-se a esse dito povo que só existe no imaginário deles, mas que serve e desculpa para que morram diáriamente ás dezenas e centenas, e deixem mutilados milhares e porque não milhões, sempre com a presença o comando com as suas tropas aos milhares, vindas do reino do Tio Sam (Americano) e seus discípulos (os ditos Aliados), Inglaterra etc. etc.
Conheci e vivi a guerra por dentro, convivi com as populações e guerrilheiros, antes e depois da Independência. Li e apercebi-me do Teatro da Guerra e os fins que ela servia (apenas e só os interesses para sustentáculo do regime do Estado Novo, Grupos Mellos, Champalimauds, Jardins etc. assim como ao Apartheid Sul- Africano, que pagava a vassalagem ao Regime de Salazar e seus amigos, com o envio de latas de Bacalhau, fruta também ela enlatada, etc. Foram quatro anos que estive nos Serviços de Informações e no Estado Maior, sei que apenas e só de um ou outro lado, em casos extremos atiravam a matar, como se diz na gíria.

Escolinhas:
Devo-vos esta, que sirva para vos poder dar a conhecer o orgulho de poder desfrutar de vós, registando a forma desinteressada como vos prontificastes a ministrar-me a vossa sabedoria , para que eu possa desenvolver e usar toda esta vossa sabedoria e que dela desfrute quem lê os vossos/nossos Blogues e tudo o que lá escrevemos. E vós, com aquele militarismo que muito bem nos obriga a cumprir, mesmo que reconheça, não ser um cumpridor exemplar, esforço-me por dar a resposta a que eu não me deixe adormecer e adiar sucessivamente, com aquela do "Não faço hoje, faço amanhã", sabendo que o ontem apenas serve para recordar e o amanhã que nunca chegará, será sempre no hoje que teremos de desenvolver o trabalho, porque nos ensinaram que apenas existe um só dia para as boas e más decisões, a que chamamos de hora H (de hoje). Obrigado, professores.

Ligados pela Guerra:
Não fora isto e muito provavelmente independentemente do nosso Voluntariado, nunca teríamos servido a nossa Aramada, pois se de entre muitos fomos seleccionados, o que seria se a Marinha fosse muito mais reduzida e o número dos seus elementos (Marinheiros).
Eu, o Manuel e o Luís, estivemos lá ao mesmo tempo, ao passo que o Carlos esteve antes, mas o amor é só um (Único) e foi esse e é esse Amor e o termos estado em anos e locais diferentes, que nos permite fazer relatos de vários anos. Não esquecendo que disponho de fotografias que logo que me seja possivel aqui as vou meter, assim como os seus testemunhos. Se tudo se mantiver normal, esta quinta feira vou conhecer o Carlos pessoalmente,e vou entregar-lhe algumas para digitalizar e meter alguns testemunhos dos companheiros do Exército que lá estiveram e que nutrem, tal como nós, um sentimento ímpar por esta grande ex-grande colónia, hoje uma nação. Nação que seguramente, com o tempo, virá a desenvolver-se, porque dispõe de uma riqueza no seu solo e subsolo, que lhe permitirá livrar-se dos interesses capitalistas estrangeiros. E que este seu povo tão sacrificado e sem culpa, tenha direito a desfrutar da riqueza que na sua terra existe e que os Sanguessugas sempre comeram.

Sabedoria popular:
Ela dá-nos este guião, "Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer". Sabedoria que não nos trai, depende de nós se a compreendermos, ou mesmo se a quisermos aceitar e seguir. Só a seguindo pode quem tem a paixão de partilhar, dando a conhecer as experiências acumuladas, já que o idoso, em regra, dispõe de um grande armazenamento, também sabemos que o passado nos ajuda no presente e é um bom conselheiro para preparar-se o futuro.
Muitas vezes acabados de nos deitar pelas altas horas entrados na Madrugada, toca a combate e num ápice damos por nós a ligar a caixinha e é impressionante que normalmente nunca desenvolvemos o tema que nos levou a levantar tão rapidinho e passar o descanso para outro plano de menor emergência.
Não vos estou a dar novidade nenhuma , mas é verdade, que me levantei para escrever um artigo para os Jornais de um encontro (Colóquio de Alcoolismo no qual e mais uma vez a minha cara metade, que insistentemente me chama de machista) queridos amigos deu por mim a choramingar, e não fiquei indiferente perante um testemunho de uma doente que não consegue parar e sofre horrivelmente, porque em tempo de alguma lucidez se apercebe que a jóia mais importante que teve e tem, e que a abandonaram, a familia. Chorei, porque primeiro não comungo daquela ideia de que o homem que é homem não chora. Eu faço-o muita vez em público por sentimento e isso enche-me de felicidade.

Inspiração:
Não depende de nós controlá-la nem resulta tentar provocá-la, porque ela não cede a chantagem, para que possamos dispor dela e controlá-la , marcando-lhe as horas a que teria de aparecer.
Normalmente ela aparece e dá-nos um tempo limitado, exemplos como a sorte etc. Se aproveitamos a sua presença dispomos do tempo que queremos, se o não fazemos pode nunca mais voltar a trazer-nos essa lembrança (no caso maravilhosa) à memória.
Certo que normalmente nunca tratamos do assunto, nos leva a levantar num àpice, mesmo que nos tenhamos deitado há uma ou duas horas. Um exemplo - eram quatro da manhã quando me deitei e eram seis e dez estava a saltar do aconchego. Vinha para escrever e desenvolver um tema que era referente ao alcoolismo, acabei por escrever esta carta, há muito devida, e que, seguramente,vou recordar sempre que abra este Blogue.
É uma mensagem importantissima para mim esta que finalmente me inspirei e vos dou a conhecer, porque esta é a minha simples mas sentida homenagem a todos quantos passamos por lá e ao Povo desse agora País, na sua grande maioria com muito maior sofrimento que eu.
Vou terminar com o sentido do Dever cumprido e felicíssimo por ter partilhado com todos vós estes minutos maravilhosos.
Vós sois uns Amores.
Bem hajam.

Pedido e oferta!

Há muito que vou pedindo ao meu Pai Natal, apesar de reconhecer que tantos serão os pedidos, que dificilmente poderei ser atendido. Sem exigências, vou continuando a pedir, porque isso enche-me de felicidade. Tenho vontades e desejos, as saudades dos meus amores ganhos são muitas pelas viagens rumadas pelos mares de Navegantes e as Terras onde vivi e me apaixonei, mais as que conheci nas quais tive pequenas paragens e onde aprendi a gostar.
Foi realidade e somente realizável, por ter tido o privilégio de ter servido na Armada, e foi graças a esta Mãe adoptiva, que tanto quero e amo, que foi possível acrescentar mais amores e paixões àquelas que já tinha. Mas por vezes em sonhos, outras em alucinações, levam-nos a viver realidades que duram por horas que com a intensidade que interiorizamos essa vivências levam-nos a percorrer e a estar tempos do antigamente.
Foi-me concedido e eu senti e vivi a partida da Doca de Alcântara, a bordo do velho Índia, a saída de S. Julião da barra, apostei e ganhei o Totomilhas. Bati as cartas do jogo da batota e ouvi os soldados a reclamarem do barulho que nós, os 32 marinheiros, provocávamos, já que podíamos dormir todo o dia enquanto que para eles tocava a alvorada. Fazerem queixa ao Comandante da sua Companhia que nós, os Marinheiros, com os gases saídos pelo anal, fazia um ruído enorme, e o Comandante de Bandeira, pertencente à Marinha de Guerra, responder-lhe:
- Comandante, enquanto os meus marinheiros disparem essas bombas os submarinos não nos atacam e o navio não se afunda.
Também o sabor do salpicão, presunto, bom vinho, etc., que cá da terra me tinham pedido para levar e mandar para um amigo do Exército que estava no mato em Moçambique. Azar que o mau tempo e o abalroamento do navio, entrou água que estragou as carnes e a bagalhoça partiu as garrafas (já foste!).
Chegado a Angola e um caixote cheio de cartas da namorada. A todas elas uma só resposta - querida desculpa o passado, que eu casar não caso. Se não tinha ouvido combinarem o casamento porque carga de água haveria eu de casar? Lá nisso, nos 32 estavam mais dois nas mesmas condições. Vida de marinheiro. Vai marinheiro, vai, vai.
Seguindo rota e numa navegação de cruzeiro, onde o navio não atingia mais de 15 milhas (1852 metros) por hora, lá nos vimos chegados a Lourenço Marques.
Filhos da Escola, que tal a dobrada, o camarão, a Laurentina e a Dois M? Já para não falar das Maparras!
Dois dias e lá seguimos viagem até á Beira. A Guerra do Petróleo ( Os fados do Alfredo duarte Júnior ( Filho do saudoso Alfredo Marceneiro) no Moullim Rouge.
Depois, o Índia segue para Macau e nós para o comboio do Catur.

domingo, 22 de novembro de 2009

Pai Natal!

Utilizando a máxima da sabedoria popular: "Não acredito em bruxas, mas que as há, há”. É-me indiferente o que possam pensar e a simbologia a que o ligam. Para mim o Pai Natal, existiu, existe, e continuará a existir. Existe porque Pai Natal que me ensinaram a pedir os meus avós e os meus pais, em especial a minha mãe, era um Pai Natal carinhoso, simpático, apesar das barbas brancas, um Pai Natal envergonhado que queria dar sem ser visto e que descia, noite dentro, pela trapeira (chaminé), indiferente ás asneiras que pudéssemos ter praticado nesse dia de 24 para 25 de Dezembro. Havia absolvição total, era um dia diferente onde o bacalhau, batatas e tronchudas, o azeite novo, as rabanadas e a aletria, nos faziam companhia à mesa. Esta consoada na minha aldeia, perdura na minha memória e não será por acaso que se cumpre rigorosamente, esta tradição vinda dos meus antepassados.

Ainda guardo dentro de mim a tristeza que senti no primeiro Natal passado a navegar no mar do Norte, ao serviço da Aviação a bordo de um navio e, á hora habitual da ceia (o jantar) a substituir a minha caldeirada, veio uma massa guisada, que eu adorava comer no rancho da Porca, mas que naquele dia não passou a goela. O mesmo aconteceu quando depois, muito mais tarde, veio a ceia de Natal. Também não passou a goela, porque nada tinha a ver com a minha ceia, a ceia onde a seguir tinha a agradável surpresa do Pai Nata, cumprindo rigorosamente o tradicionalismo da consoada.

Este tradicionalismo, onde o carinho e o amor dos meus pais, o ajuntamento de meus irmãos e toda a família, era assim com as gentes da minha aldeia e naqueles dias o amor e partilha contaminavam todos. Certo que existia diariamente, mas naquele dia era muito mais forte, porque convinha seduzir o convidado especial, que de dia faria uma aproximação para perceber se deveria ou não vir pela calada da noite.

Acreditei, quero acreditar que este Pai Natal existe em todos nós. Herdaram os meus pais dos meus avós que eram tão pobres em valores materiais que, não fora estes valores morais, teria sido uma herança de pobreza total. Passando de geração em geração, até à minha, quero acreditar neste Pai Natal, que me traz algo muito importante, entrando, ainda hoje, pela trapeira da minha velha casinha, e me conforta com todo o carinho e amor.

Bendita cretinisse!

Quem me conhece, sabe que não professo nenhuma religião, desde que logo fazer-lhe um pedido, poderá parecer um pouco irracional. Mas desde criança, em tempos que não ser crente, era considerado quase um crime. Sempre tive a frontalidade de não esconder esta grande verdade que certamente e muito cedo nasceu em mim. As razões que terão contribuído para que tão cedo viesse a acontecer, poderá ser encontrado a seguir:

Contava cerca de seis anos de idade, quando juntamente com um bom Traquina, mais velho que eu 3 anos, me incentivou a ir roubar dois cravos à quinta duma beata solteirona, de nome Maria José. Era então a Catequista, e enfeitava o altar da Senhora de Lourdes, na Igreja da minha aldeia, Sebolido / Penafiel. Não precisou de insistir muito, para ter a minha anuência, pois lá porque era mais novo não era melhor. Concretizado o objectivo, lá fomos armados todos janotas, cravo na orelha e num vai que toca, vai que chuta, vá de passar frente a casa dela. Azar o nosso porque ela logo nos identificou, o que não era difícil, porque éramos únicos. Minha mãe teve de pagar 25$oo e a dele 30$00 (que dava para pagar um campo cheio de cravos), depois o costume , cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

Hoje, como ontem, testo que não se justificava minimamente um preço tão alto a pagar. Não tenho plena convicção se tudo começou aqui, mas acredito que sim. Como seria possível uma beata por um cravo fazer-se pagar tanto dinheiro.

Os meus amigos cristãos, e não são poucos, interrogam-me como não sendo eu cristão acredito nestes valores que ao que tudo indica para eles terão elos de ligação religiosa. Não foi, não é e seguramente não será um problema importante, porque eu quero continuar a acreditar.

Benditas alucinações!

Vivi as alucinações alcoólicas sofredoras, as quais não desejo a ninguém, pois se odiasse, não era tolerante e ao não ser tolerante, era irracional. O mesmo é dizer, apenas e só tinha parado de ingerir álcool, mas não era recuperado seguramente.
Foi com desse sofrimento, que eu não sabia o que era, que depois de me informado como isso acontece, o significado e o funcionamento gravei-o na memória. Agradeço essa elucidação ao Professor Dr. Pinto da Costa. Várias vezes me interroguei se algum dia seria possível alucinar, preservando valores do passado e vivê-los no presente.
Já passaram 23 anos, parece-nos uma eternidade, mas para mim ainda há tão pouco tempo. Era um desejo que poderia em muito contribuir para a felicidade de um desejo e vontade que me persegue e estimula.
Não tenho a noção exacta de quantas vezes foram interrompidas, mas sentia que o navio não levantava ferro e tudo continuava parado no Cais de S. Pedro de Alcântara. Numa delas veio-me à memória os meus tempos de criança e o quanto eu acreditava no Pai Natal. E decidi segredar-lhe um pedido.

A viagem de comboio!

Seguramente terei sido eu aquele a quem menos custou fazer todo o percurso (salvo todo aquele aparato militar a que não estava habituado) que visava defender-nos dos prováveis ataques dos Guerrilheiros da Frelimo. O vai p´ra terra, vai p´ra terra e as faúlhas vindas da caldeira da máquina locomotiva que pela sua antiguidade queimava mal o carvão. Há muito me tinha já habituado aqui nas locomotivas da Mina do carvão do Pejão.
Mas seguíamos com muitas reservas e, porque não, receosos, pois todos sabíamos que em caso de um forte ataque as coisas seriam complicadíssimas, pois quer queiramos aceitar, quer não, as tropas normais do Exército português estavam muitíssimo mal preparadas para a Guerra de Guerrilha. Não há tropas bem preparadas (a exemplo), porque um guerrilheiro (como eu conheci) num dia percorre mais de duzentos quilómetros perseguindo as colunas das nossas tropas.
A viagem prosseguiu com a saída do Catur, chegando a Vila Cabral e com destino ao Niassa (diário de um guerrilheiro - Dar-Es-Salam, Tanzânia). Chegado a Vila Cabral, aí pernoitamos, um frio de rachar, valeu na circunstância ter levado comigo a maca e os cobertores.
Lá seguimos viagem e mais uma confusão na Curva do Caracol, tiros de cá e tiros de lá, mas apenas e só disparos das nossa tropas. E sempre rumo ao Lago Niassa e nas Lanchas até Metangula - "O Paraíso Escondido".

sexta-feira, 20 de novembro de 2009