quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Guerra no Niassa = II

Primeiras baixas militares na região de Xilama:
A 16 de Novembro de 1964, as tropas portuguesas sofrem as primeiras baixas na região de Xilama, tendo num curto espaço de tempo alargado a sua acção em direcção a Meponda e Mandimba.

«Há dois tipos de pessoas, os que fazem as coisas, e os que ficam com ou louros»

Notas importantes:
A Emboscada da Frelimo ao caminho de ferro Niassa próximo do Catur, utilizando armas automáticas e lança-granadas foguete.
Eduardo Mondlane é assassinado em 03-02-69, , é criado um triunvirato com Urias Simango, Samora Machel e Marcelino dos Santos.
Marcelino dos Santos de tudo o que conheci dele de 1968 a 1972 e posteriormente, julgo tratar-se de alguém de uma capacidade intelectual e hunana muito a cima da média e a sua companheira, pelo desafio ao regime de então Sul Africano, será alguem com enorme determinação e coragem.
Em finais de 1969 Simango é expulso da Frelimo.
Lazaro Kavandame e a sua entrega em Cabo Delgado.

Psico:
Sempre tive a ideia que se valorizava em demasia quando se capturava alguem com alguma responsabilidade e que se lhe era sempre atribuído um valor acrescido, disso tiravam proveito os Comandos Distritais da Felimo.
Aprendi muito novo a que nunca deveremos dar mais valor às coisas,ou casos, do que que eles realmente merecem ou têm. Mas se clhar havia interres que assim fosse
Nos relatos de Guerra do Senhor Joaquim Furtado, passados na R.T.P.1 isso é por demais evidente. Ouvindo as partes envolvidas que assim foi.
Uma passagem dramática que ainda hoje me marca mentalmente, foi a de um Comandante de uma Companhia de Comandos, que estive a conviver com ele e outros membros, até bem perto da uma da madrugada, e que poucas horas depois, ardia dentro de uma viatura a escassos 800 metros do restaurante do Neves em Metangula, quando ocorreu o desastre de Sá Carneiro e passaram a imagens do corpo carbonizado, veio-me à memória, como foi possivel um homem daquela estatura ficar reduzido a tão pouco.
Não partilho do relato que é feito, porque certamente não teria acontecido, se houvesse uma correcta informação, de que uma das armas mais fortes da guerrilha, quje são as informações do boca a boca, e como tal deveriam ser evitadas certas afirmações e informações, inclusivé a ida de co.luna e não nas lanchas.
Mas certamente e infelizmente casos destes terão acontecido mais que muitos

Guerra Moçambique = I

Conta-me como foi:
Sabendo-se que os colonos brancos foram os primeiros a reclamarem a autonomia e mesmo a independência.
Quem esteve em Moçambique e sentiu a indiferença, será justo perguntar:
Em tempo algum estes colonos foram totalmente favoráveis à ida de tropas do continente para Moçambique?
Na minha modesta opinião penso que não. Mas isto é apenas e só a conclusão a que cheguei.

Repressão causando mortes:
A greve feita pelos Estivadores em Lourenço Marques no ano de 1956, onde a sangrenta repressão causou a morte a 49 trabalhadores, não poderia e deveria ser evitada?....
O Massacre em Mueda em Junho de 1960, onde foram assassinados 17 negros, não poderia e deveria ter sido evitada?.....

Criação de Organizações de Guerrilha:
Sabia-se que tinham sido já criadas as Organizações MANU e UDENAMO no ano de 1959, seria de esperar que o Massacre de Mueda, serviria para um rápido despoletar, para que estas organizações fácilmente conseguisse mais apoiantes, face aos acontecimentos já ocorridos, o que nem surprende que logo no ano seguinte se venha a criar uma outra Organização a UNAMI em 1961.
Nem foi difícil a Julius Nyerere Presidente da Tanzânia,aconvencê-los a fundirem-se num só, com o nome " FRELIMO".
Sabia por contactos estabelecidos que ao contar com um Comandante credenciado como Eduardo Mondlane.
O caricato é ouvir-se há muitos anos o velho slogan gasto, mas que ainda vai sendo alimentado por quem de boa fé acredita que os 250 guerrilheiros que a Frelimo contava nas suas fileiras quando a 25 de Setembro de 1964, inicia a guerrilha em cabo Delgado. Veja-se o que aconteceu a todos os Países que enfrentaram essas guerras de Guerrilha, e quais foram os resultados finais.
Veja-se no dia de hoje, que andam milhares ou milhões, que se gastam biliões, que se matam seres humanos incontáveis, justificado pela procura de um homem chamado Bid Laden, que se calhar o mais certo é nem existir já.
Mas basta uma mensagem passada na tal estação de televisão Aljazira, que logo é credebilizada, para justificar posições assumidas, ou que viram a ser executadas.
Se asssim é !...
Então o que representava nas matas de Cabo Delgado essas duas centenas e meia de guerrilheiros.

Ferido Mortalmente no distrito do Niassa:
Documentos crediveis, apontam que no dia 24 de Agosto de 1964 um Padre da Missão de Nangolo foi ferido mortalmente, e que estas acções teriam sido levadas a cabo por Grupos de Guerrilheiros da MANU ou da UDENAMO.

Convicções:
Poderemos gostar ou não, mas a história faz-se repondo a verdade e essa só será consistente se fizermos relatos desapaixonados.
Não se trata de criminar ou julgar, mas sim ilucidar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Traumas de Guerra = VII


Monumento de Homenagem aos mortos do Rio Zambeze

Vezes incontáveis revi esta fotografia

Já se passaram quarenta anos sobre a data em que ocorreu este trágico acidente, mas tal como no dia em que aconteceu, recordo constantemente o trágico acontecimento. Pergunto a mim mesmo se não seria de inteira justiça ter pelo menos constado uma referência a todos aqueles que estiveram envolvidos. No meu caso concreto como sobrevivente.

Esta pergunta pairará sempre, até ao dia da obtenção de uma resposta de quem de direito.

Quem ousa Vence!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Homenagem = Militares Naufrágio Zamb.. =VI


Monumento de Homenagem aos Mortos do rio Zambeze
Muembe/Niassa/Moçambique
Construído pelo Bart 2847

Sentimento e Sofrimento= Homenagem

A Ponte

I
Ponte... que és passagem
Que encurtas distâncias
És também a mensagem
Para novas esperanças!
II
Ponte... novo caminho
Para outro horizonte
És também um pergaminho
De hoje e não de ontem!
III
Ponte...que levas amizade
Aquém e além do rio
Mas também deixas saudade
Se inverteres o teu feitio
IV
Ponte... de amor
Ponte... de carinho
Ponte... de louvor
Se não deixares ninguém sozinho
V
Ponte... da desgraça
Que unes duas margens de terra
Onde morreram numa barcaça
Os nossos colegas de guerra!
VI
Ponte...quem diria
Inaugurada na euforia de alvoroço
Se fosses ponte naquele dia
Evitavas tanto desgosto...
VII
Ponte...das omissões
Dos governantes de então
Ponte... dos mil perdões
Destes governantes sem perdão
VIII
Ponte... de famílias
Ponte... de namoradas
Ponte... de noivas aflitas
Ponte ... das esposas malfadadas
IX
Ponte de jovens militares
Ponte de tantos gritos e ais
Ponte... de familiares
Ponte... de órfãos e de pais
X
Ponte... de tanta agonia
Ponte daquele rio infernal...
Zambeze na tua fúria desabrida
Enlutaste o nosso Portugal

Autor:- Agostinho Teixeira Verde

Vila Cabral = Muembe


Meditação
Expondo-se para obter uma foto a enviar à familia

A arma mais perigosa do Niassa = Minas Armadilhadas
Vê-se buraco na terra,
provocado pelo rebentamento de uma dessas armadilhas

Na frente da Berliet pode ver-se:
O Cardoso do lado direito e o Alferes Rebimba à esquerda
Chiconôno, povoação entre Tenente Valadim e Muemba



domingo, 3 de janeiro de 2010

Batelão da Tragédia = Tragédia parte V


Neste Batelão embarcaram cerca de 150 Homens, e seus bens, 3o Unimog´s

Foi daqui deste batelão, e ao meio do Rio Zambeze que 101 Militares e mais dois Civis perderam a vida. Corpos houve que nunca mais apareceram.

Justa Homenagem = Viver é a coisa mais rica do Mundo = Vibre com a vida

Manuel nu e tremente
Pés gelados do frio chão
Interroga-se tristemente
Porque morreu tanto Irmão
II
Morrem mais de uma centena
Por não alcançarem terra
Salvam-se meia centena
Sabem agora o que é a guerra

Agostinho alertado por um camionista:
Encontrava-se o Agostinho de sentinela, quando um camionista começou a gritar para dar o alerta, a fim de informar os Comandos, da tragédia que tinha ocorrido. Felizmente ainda é vivo este sentinela e vive em Entre-oa-Rios, e talvez seja aquele, que melhor saiba contar como veio a ser determinante esse apoio que permitiu ainda socorrer vários náufragos, aqueles que se encontravam nos bancos de areia do rio e os que ainda se encontravam no Batelão. Isto tornou possivel evitar que o número de vitmas fosse ainda maior.
Quando os sobreviventes chegaram a Mopeia, informaram o Agostinho de que entre os sobreviventes havia dois soldados de Penafiel. Logo correu a confirmar se isso correspondia à verdade, o que veio a confirmar-se. Eram eles o Manuel Cardoso e o Torres.
Sabe o Cardoso que o Torres, antes de embarcar para o Ultramar, era Bombeiro na Corporação de Cête. Mais tarde, após ter regressado, fez várias diligências indo inclusivé aos Bombeiros, mas nunca conseguiu localizá-lo. Quanto ao Agostinho, foi importantissimo na ajuda ao vizinho Cardoso, já que vivem a uns escassos cinco quilómetros. Somos amississimos e mantemos contactos regulares..
Durante aqueles quinze dias, não tinha um tostão. Dirigi-me aos Correios de Meponda e pedi para me fiarem um registo para contactar o meu pai, a fim de lhe pedir que me enviasse dinheiro. Recebi três mil escudos passados uns dezessete dias, mas até aí valeu-me o meu vizinho.
Jamais me esqueci deste acto de solidariedade, e sempre que me encontro com ele, sinto -me confortado por estar junto de uma pessoa que num pequeno gesto, mas que numa situação daquelas, representou e representa um préstimo de valor incalculável.
Combinei com o Valdemar e vamos estar com o Agostinho, para ser registado, o que ele tem para dizer.
Fiquei imensamente satisfeito, quando hoje o Valdemar me deu a novidade que tinha encontrado um testemunho de um Oficial que viajava comigo no Vera Cruz, e que relata com e só a verdade o ocorrido. Melhor ainda porque fiquei a saber que há fotografias documentais do acidente.

«Declarações do Manuel Cardoso»

sábado, 2 de janeiro de 2010

Tragédia Rio Zambeze = IV

Coisas e Casos:
Como atestam os Decretos nºs 49249 e 49250, publicados em 5 de Setembro de 1969, que muito, e bem e certamente devem pecar, porque o acto de coragem heróica destes cinco homens, muito provávelmente seriam merecedoras de distinções superiores. Porque e quais as razões que teriam levado a que não fossem condecorados os sobreviventes, que pelo seu acto de coragem calcorrearam a Ilha e desafiaram todos os perigos, no escuro da noite, e essa sua coragem, valeu-lhes terem chegado junto dos Irmãos Campira, e os terem sensibilizado para a tragédia .
Quanto ao desafio enfrentado no Rio Zambeze pelos Irmão Campira, não nos surpreende a nós Pescadores/Marinheiros, sabendo-se que são sempre assim, os verdadeiros, que não salvam por interresse, mas por dever.
Sabe-se agora que o Patrão do Batelão, que era natural de Algés e teria sido um brilhante nadador do clube local, mas que infelizmente de nada lhe valeu. Julga-se que o seu corpo jamais apareceu.
Paz à sua Alma!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Boas entradas no novo ano de 2010 !!!


mundodoorkut.com


Que no ano de 2010, vos saia o euromilhões, de saúde, dinheirinho, felicidade, amor, paz e muitas amizades. Boas entradas e um 2010 fantástico.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Cabo das Tormentas


Com a devida Vénia= foto do Blogue Olhar o Passado Paquete Vera Cruz no dia do Baptismo

Com a devida Vénia a Joaquim Santos



A foto confirma os danos sofridos no Paquete Vera Cruz

Pesadelo em Alto Mar
Depois de muitas horas de pesquisa, finalmente consegui encontrar uma prova que atesta a veracidade do testemunho abaixo escrito, não só importante para aquele que é relatado pelo Manuel Cardoso, como para o Alferes Andrade, da Companhia de Caçadores 2358 que deu à revista "Notícias Magazine e publicada em 31 de Maio de 2002", a qual espero permissão do Autor para a divulgar aqui no Blogue, dando desde já total liberdade ao Autor do Blogue Olhar o Passado, da responsabilidade do Senhor Joaquim Santos, caso pretenda algo do que relata o testemunho, que disponha livremente.

Fala a sabedoria popular:-


Que não há duas sem três, e "que até ao lavar dos cestos é vindima"


Depois do trágico naufrágio, das patrulhas e das várias deslocações arriscadas, longe de mim pensar outra coisa, que não fosse o regresso calmo e onde poderia recuperar do trauma no aconchego da familia. Terminada a Comissão, quando nos informaram que a viagem teria lugar no Paquete Vera Cruz, dado a sua enorme categoria, pois sabendo tratar-se de um dos mais seguros e luxuosos paquetes de todos os tempos, fazia acreditar que teriamos uma viagem sem sobressaltos, fiquei feliz e a pensar que poderia recuperar, do trauma que me perseguia e seguramente iria aumentar, ao relembrar e sentir ainda mais a falta dos camaradas que por lá ficaram do trágico naufrágio a que já fiz alusão.
Acredito, que o mesmo pensamento, morava na mente daquelas cerca de seiscentas criaturas, a grande maioria por outras razões, e por outros casos que consigo tenham ocorrido.
Puro engano.
Embarcamos no Porto da Cidade da Beira,mas eis que na madrugada de 26 de Maio pelas 4h20m, estando a navegar frente ao cabo Morgan, antes de atingir o cabo das Tormentas, começa a levantar-se uma forte ventania o que provoca uma forte ondulação. De repente duas ondas sismicas desencontradas, provocam um estrondo enorme, em que muitos caímos abaixo das tarimbas, onde dormiamos. Subi imediatamente do purão, para ver o que se passava.
Vejo que os marinheiros já estão com coletes de salvação vestidos, e que o navio aparentava ter a cabine destruída e a proa muito mergulhada.
Começamos a entrar em pânico indo para as baleeiras, pois parecia que o naufrágio era certo, já que o navio meteu muito àgua, o que demorou uma eternidade, a proa do navio a voltar à superficie e a voltar a manter a posição quase normal.


Com a devida vénia ao Autor do Olhar o Passado

Ilucudativo= Vidros totalmente partidos na cabine do Vera Cruz
Com os vidros da cabine todos partidos que teria talvez mais de 20 metros de altura do nivel da àgua.
O Comandante , apercebendo-se dos estragos, entendeu que o navio estava impossibilitado de continuar viagem,, pediu para regressar a Lourenço Marques, para um reparação que foi rápida e apenas a remediar, para que o Paquete conseguisse chegar a Lisboa, onde aí seria devidamente reparado.
Demorou uns seis dias, a colocação de uns remendos na Proa e no Comando, e lá seguimos viagem, a navegar a velocidade reduzida, tão reduzida, que uma viagem que no India ou no Niassa os navios mais lentos de todos, demorava em média 23 dias. Demoramos 25
Neste caso e em condições normais o Vera Cruz demoraria certamente metade do tempo.
Felizmente ultrapassei todos estes problemas e sou tenho consegui ser feliz, mas sem em momento alguma esquecer aqueles que lá perderam a vida. Feliz por sentir que ainda me mantenho vivo, e assim poder relatar estes testemunhos que são rigorosamente verdadeiros, sabendo que estou a contribuir, a ser mais um a ajudar a perpetuar a memória dos meus Camaradas, que perderam a vida no Rio Zambeze. Também recordar aquele que me salvou de com tenra idade, e juntamente com o meu Irmão António nos ter salvado do afogamento certo no rio Douro, pois na altura não sabia nadar e acordei para uma realidade que tinha de aprender a nadar, o que seguramente me valeu o salvamento do afogamento no rio Zambeze.
Não quero terminar sem recordar a memória do meu grande amigo Jardim, infelizmente que pereceu e o seu corpo nunca apareceu que em desespero gritava por mim que não sabia nadar e que como tal iria morrer, sem que eu nada possa ter feito, e ainda ter tido tempo para lhe ter dito que nada podia fazer.
Não era possivel fazer mesmo nada, a não ser para morrer também, era mesmo impossivel poder-se salvar alguém, e no meu caso que até nem era grande nadador.
Estejam onde estiverem estou de alma e coração com eles e assim continuarei até ao fim dos meus dias.
Autoria = Manuelo da Rocha Cardoso

Testemunho dado no Centro Recreativo e Cultutal de Sebolido



Testemunho Zambeze =2

Tragédia no Rio Zambeze, Condutor Cardoso 2º da Esquerda para direita de pé

Autor:- Manuel da Rocha Cardoso- Residente -Sebolido -4575 = Penafiel Condutor Auto Soldado Nº 067488/67

O Cardoso, ao meio, com o Simões e o Torres mais dois sobreviventes

Estava aquartelado em Vila Cabral, quando recebi com mais sete camaradas da minha companhia,uma ordem para nos deslocar a Lourenço Marques, para conduzir uma viatura nova, que nos tinha sido atribuída.
Fui transportado ao Comboio, e nele segui até Nacala, embarcando no navio Império, que me transportou até Lourenço Marques.
Ali nos juntamos a outros condutores pertencentes a outras companhias, estivemos lá um mês aquartelados, aguardando as viaturas novas que viriam da Àfrica do Sul.
Chegadas as viaturas, em número de trinta. Unimogues 404 a gasolina ( Os Grandes) e 411 a Gasóleo, ( Os Pequenos), os chamados Pinchas.
Neste tempo chegaram praças Checas (Soldados vindos recentemente da Metrópole), lá seguimos viagem, foi em média destinado a cada viatura em média cinco pessoas.
A coluna era comandada por um Tenente, um 1º Sargento e um Furriel.
Seguiu-se por Vila Luisa, direção a Ilhambane,, continuando em coluna até Chupanga.
Ali chegados deparou-se com o primeiro problema, o Batelão S. Martinho tinha avariado, ficamos ali à espera, até que o Batelão fosse reparado, o que demorou seis longos dias.
Fomos sidos alimentados a ração de combate (passando mesmo fome), dormindo debaixo das viaturas, num charco pantanoso e muito susceptivel a mosquitos.
Foi com enorme alegria, que toda a gente recebeu a noticia que o Batelão estava finalmente reparado, e que seguiriamos viagem nesse dia.
Lá fomos até ao Rio, carregaram -se as trinta viaturas, o material de guerra e nós as cerca de cento e oitenta pessoas, já incluídos os membros da tripulação do Batelão, assim apenas se faria uma travessia interessava-lhes que fossem todos para apenas fazerem uma travessia.

O sentinela que alertou os Comando do trágico acidente

O Agostinho, felizmente ainda vivo e residente em Entre-os - Rios Penafiel

Muito brevemente iremos ouvir o seu testemunho

Havia uma enorme cheia, o que não permitia ver a outra margem. O que fazer a travessia junto ao caír da noite, não parecia muito acretado.

Pouco depois de largar comecei a aperceber-me que o excesso de carga, os três motores volvos a puxar o barco, barco este que era composto por uma espécie de três rabões antigos (exemplo dos que se usavam para transporte de carvão no Douro), com estrado de madeira em cima, de uma grande dimensão.Junto as bombas a tirar àgua. No entanto o excesso de àgua que entrava pelos calados, dos três barcos começou a ser tanta que logo nos começamos a aperceber que ele se estava a afundar, e o tempo que demorou a afundar-se foi cerca de trinta minutos. O afundamento, veio a acontecer sensivelmente ao meio do rio, na correnteza do rio

Doze sobreviventes, foram parar a uma Ilha enorme no meio do rio, a nadando e sem qualquer auxilio.

Fui o primeiro a alcançar terra e mais onze o conseguiram fazer nesta Ilha. Juntos fomos caminhando,´já que isto era um ermo, e tudo nloite escura, atravessamos alguns pequenos riachos, até que avistamos uma luz, procuramos caminhar na sua direção e fomos bem sucedidos, com o apróximar, descortinamos tratar-se de uma fogueira e posteriormente avistamos uma palhota, chegados lá, em volta da fogueira estavam quatro negros. Dirigimo-nos a eles explicando-lhe o porquê de nos encontrarmos ali, e o porqquê de estarmos completamente nus.
Imediatamente pegaram cada qual na sua almadia (espécie de piroga) fizeram-se-se ao rio, recolhendo e transportando naufragos, para junto onde nos encontravamos. Começando nós o tratamento na sua recuperação, incluindo o boca a boca para a sua reanimação.

O Batelão e o fundo do Rio

O Batelão teria apróximadamente quarenta metros até à quilha, fundo dos Rabões cerca de quarenta metros, e o caudal do rio cerca de trinta, tendo ficado fora de àgua uma parte do Batelão por volta de dez metros , o que permitiu a que entre dez a doze homens aí continuassem agarrados, e assim tivessem sidos salvos pelos quatro negros.

O Comandante do Quartel de Mopeia que foi alertado pelo citado comionista, terá alertado o Comando Geral do acontecido, que por vez contactou o Capitão do Porto, de nome Fernando Manuel de Sousa, que jaz no cemitério de S. Jorge, campa nº29 segundo informação obtida por Tintinaine C.F.nº2) que enviou e decorrido muito tempo chegou um pequeno navio, que para transportar os cerca de cinquenta sobreviventes até ao quartel mais própximo em Mopeia, foram transportados em mais de uma viagem. Valeu-lhes a fogueira para se aquecerem, já que estava muito frio e eles sem roupas, tendo feito nesta nudez a viagem até ao quartel. Veio depois a saber-se que o pequeno navio Sena Sugar Estates de seu nome Mezinga. E que também heróis desta tragédia, os quatro irmãos se chamavam, Vasco, Zeca Manuel e Armando. foram como consta no Diário da República e um marinheiro conforme consta nos artigos homulgados em 5 dde Setembro de 1969



Quando se poderia esperar e desejar que o nosso sacrifício viesse a acabarcom a chegada ao aquartelamento, (puro engano) foram -nos entregues umas roupas desajustadas aos nossos corpos, e uma refeição quente. Fomos mandados dormir para um escola cimentada, e a cada um nós foi-nos entregue uma esteira e um cobertor. Mantendo-se assim, e durante um mês, vivendo nestas meseráveis condições, para que podessemos identificar os corpos que vinham sendo recuperados, sendo que o útimo apareceu ao trigéssimo dia. Não tendo aparecido dez corpos.



Neste espaço de tempo foi feito um cemitério com capacidade para os sepultar, fazendo um murado.



Os caixões foram feitos pelos negros, com quatro tábuas toscas em cada um se colocava o nome da pessoa, para que posteriormente viesse a ser identificado, quando reivindicado pela familia e então seriam passados para uma urna em chumbo como a fotografia, como mostra no Blogue Companhia Fuzileiros nº 2, para seguirem para as suas terras natais, a fim de serem entregues às familias.



Durante esse mês em que estivemos em Mopeia, fomos alimentados no quartel, nunca nos tendo sido oferecido nem dinheiro, nem outros bens, mesmo sabendo-se que tinhamos perdido todos os seus bens. Fizeram um levantamento dos prejuizos de todos os nossos bens, e em média oscilava entre os trinta e quarenta mil escudos, isto em 1969, quando em 1972 um terreno urbanizado com quatrocentos metros quadrados, e a cinco quilómetros da cidade de Espinho, e a quinze do Porto, custava vinte e um mil escudos, mas que nunca chegamos a receber nem um chavo.



No meu caso concreto faltavam-me ainda cerca de um ano para terminar a comissão, regressei à unidade a Vila Cabral, sendo exigido no imediato o comprimento integral das tarefas.



Cumprindo rigorosamente, como nada se tivesse passado connosco. Os traumas de que passamos a sofrer eram irrelevantes. Nem uma condecoração ou um simples louvor, para que pelo menos mentalmente servisse para nos ajudar, e ao mesmo, para perpetuar a memória dos nossos camaradas que deram a vida ao serviço nossa Pátria.



Alguem tinha de ser o primeiro a alcançar terra e a dinamizar o grupo para calacarrear a Ilha, certo que calhei de ser eu, e por isso dedico essa sorte a todos os camaradas que naquele dia fatidíco sobreviveram ou pereceram no Rio Zambeze.



Estava em Muembe/Niassa a setenta quilómetros de Vila Cabral, depois disto, ainda eram frequentes as viagens por várias localidade do Niassa, incluindo Metangula, e várias vezes senti de novo a morte.



Não posso deixar de referir que o Comandante do Batelão e o Oficial que nos acompanhou também ali morreram.



Aos que morreram paz às suas almas, e aos que sobreviveram as maiores felicidades.



Testemunho dado em 28 de Dezembro de 2009 no Centro Recreativo e Cultural de Sebolido, do qual sou Presidente da Direcção, ao meu Secretário e responsável pelas Secções Cultural e Recreativa, valdemar Marinheiro.



O Regresso atribulado no Paquete Vera Cruz descrito em cima.