O frio acendeu-se na deslocação dos corpos
a terra já não produz o sémen da colheita
nem a foice corta o centeio amarelecido
o homem já não grita, liberdade
já todos o esqueceram perto do dedive.
Os barcos fazem escala na maré, ora-se
a um cristo feito de barro, de cabelo comprido,
espinhos cravados, sempre com as mesmas lágrimas
presas nos olhos feitos em sangue.
Os peixes já não morrem pela boca
imobilizaram-se no sono antigo da pesca
o chaile negro esvoaça sobre o saragaço
amalgamado o lixo crestado dá à costa.
A luz extingue-se lentamente
na cadeia de Peniche,
no interior da mão envelhecida
o sangue ainda escorre pela parede.
Apaguem as velas
antes que a escuridão
ouça
os meus passos.
Por tudo isto venero o meu Rio, e de dentro do meu barc, invoco todos os deuses que caminham sobre as águas acreditando convictamente, que dentro delas saiem todas as forças interioriza-se em mim e me dão coragem para vencer.
Obrigado meu rio.
Conversas com um Rio